
E então, ela me pediu para escrever sobre ela. Esse seria seu presente de aniversário.
Mas como eu faria isso? como eu escreveria sobre alguém que jamais tinha visto, uma pessoa que não sabia o verdadeiro nome, nem sequer aonde morava?
Porém acho que esse foi seu intuito, saber como eu a descrevera, como eu a imaginava.
O que eu falaria dela? do sorriso que eu imaginava ela ter? da sua risada discreta e elegante? sua classe singela e silenciosa, seu bom gosto e seus vícios, seus problemas pessoais e suas conquistas?
Eu não saberia fazer isso. Eu não poderia.
Teria eu que invadi-la para saber, teria que explorar a sua vida, argumentei sobre isso. Ela não aceitou, me confiara então o que seria sua discrição mais perfeita.
O que nos rodeava era o fantasioso, a ilusão, a não verdade: porque nada era mentira, nada era verdade. Entre nós, não havia mentiras, assim como, não havia verdades.
Tudo era fato, o que acontecera, acontecera. O que não acontecera, não acontecera.
Tinha a capacidade de absorver todo tipo de conhecimento, era isso que me fascinava naquela menina (ou seria homem? ou seria homossexual? ou nada disso?).
Ela sempre dizia que cultura inútil era com ela mesmo, só que eu discordava. Tudo me era útil, adorava ouvir suas histórias.
E então, comecei a traçar um perfil dela: como eu achava que ela se vestira, qual seu tom de voz, a cidade em que parecia morar, se tinha mãe, pai, namorado.. etc.
Tudo isso me ajudou em nada, ela era ilusória, eu não tinha como provar sua existência.
Então, falei de como imaginava seus cabelos castanhos claro caídos no ombro em fios retos, uma boca fina e discreta, e olhos fortes: sobre tudo, olhos penetrantes.
Imaginava-a meio Argentina, mais Argentina que brasileira. Entretanto, acreditava que ela possuíra olhos verdes, verdes claros de um tom opaco, assim como as francesas. Não a imaginava como uma mulher fatal. Não daquelas que você olha e sabe que é uma mulher fatal.
Ela era do tipo que esconde o jogo. Não dá abertura a ninguém, mas quando alguém tem a oportunidade de conhecê-la, não seria capaz de esquecê-la.
Ela encantava, seus assuntos eram sempre fabulosos, eu ficava a imaginar por muito tempo se ela havia cursado alguma faculdade, ou se ainda não tinha começado...
Parecia que vivera de tudo, que havia conhecido muitos lugares, tido muitos homens, e mesmo assim, não era velha, era jovem, moderna.
Para mim, sua vestimenta seria baseada em cores escuras ou apagadas, nas acasiões mais finas contrastavam com um batom vinho, e maquiagem bem leve: pouco contorno em volta dos olhos e um blush rosado leve, e adepta aos scarpins e chanel de salto agulha. No cotidiano, imaginava-a de jeans, tênis escuros, cabelos presos, óculos discreto, e blusas justas, mas não aparecendo alguma parte da barriga, ela não era disso.
Eu imaginava também que ela sempre carregara na bolsa livros e revistas, e quando não isso,na parte da manhã estava quase sempre com um jornal embaixo dos braços, indo ou voltando de algum lugar.
Me parecia o estilo “mochileira”, que gostava de conhecer novos lugares, até mesmo lugares simples ou perto, porém ela gostava de ir sozinha.
Nascera para viver sozinha, estava na cara. E era isso que eu mais amava nela: sua independência, ela se parecia comigo nisso.
Ela não era ligada a artes, não tinha hábito de escrever, e achava que não tinha talento para esse ofício.
Eu também acho, ela não tinha, ela era do tipo mais útil, inteligente para as coisas mais importantes, e não para ficar fazendo forminhas de argila ou tentando encontrar harmonia em cores.
Conversamos por muitos anos, lembro de quando ela sumiu da internet, mas não demorou muito a voltar, e sabia que eu jamais sairia desse mundo virtual, pois eu fazia de tudo nele.
Quando ela voltou, me disse que tinha tirado férias. Mas só depois fiquei sabendo que ela tinha ido para o interior, para largar as drogas e estudar (ela me dissera). Quando voltou, estava com dinheiro suficiente para sair do país novamente, não para morar, mas a passeio, acho que o que mais a encantava eram suas viagens; ela iria para uma pequena ilha, de 3.791 habitantes, a Ilha de Páscoa no Oceano Pacífico, pertencente ao Chile.
Eu nunca entendi como ela conseguia ir para alguns lugares tão estranhos sozinha, sem guia turístico ou coisa que o valha; mas ela ia, e sempre voltava com fotos maravilhosas: mas ela nunca estava nas fotos.
Nunca nos cobramos isso, de nos vermos ou algo do tipo, mas uma vez pedi uma foto sua, e ela me disse que preferia que eu não formasse uma imagem da sua pessoa pela sua posição social, sua aparência, sua atividade ocupacional, etc.
Eu até compreendi, e realmente, achei melhor que fosse assim: nos entendíamos muito, nos ajudávamos muito; talvez se nos conhecêssemos, tudo poderia mudar, ela era inconstante demais, e por não termos obrigatoriamente alguma relação entre si, éramos muito felizes com a nossa amizade.
E no fim, levarem se meses para que eu escrevesse o devido texto, ela sempre me perguntava como estava indo, e eu sempre dizendo que estava planejando.
Com o tempo, ela foi entrando cada vez menos na internet; dizia-se muito atarefada, e estudando muito. E nossas madrugadas de chat passaram a acontecer raramente: nenhum e-mail, nenhuma notícia.
E essa distância durou cerca de 7 ou 8 meses, até que um dia, eu abri meu e-mail e lá estava sua explicação de tudo: ela fora então para a América do Norte.
Conheceu as principais cidades dos Estados Unidos, conhecera a Ciudad de México, capital mexicana e se estabilizou no Canadá, mais precisamente na província de Quebec, a maior do país. Estava muito feliz, e disse que não poderia mais entrar por um bom tempo na internet, mas que nunca se esqueceria de mim; no e-mail, como de praxe me mandou fotos da sua temporada na América do Norte.
E anos e anos se passaram, e nunca mais tive notícias dela; a única coisa que eu sabia de mais concreto era seu provável nome: Alíce.
Em um dia qualquer, quando fui pegar as correspondências da caixa de correio, havia um cartão postal de Berlin.
No verso, a seguinte mensagem: "Não se precisa ver para sentir, assim como não se precisa tocar para amar. Eternamente, Alíce."
Fiquei sem palavras quando li aquelas palavras, traçadas em escrita fina de tinta preta forte; fui até o jardim, e me sentei no gramado.
Olhando para aquele cartão, minha vida toda se passou pelos meus olhos como um turbilhão, lembrei de várias pessoas que conheci e nunca mais tive notícias, lembrei de planos, lembrei de sonhos, lembrei de decepções, e chorei.
Fiquei algum tempo ali, sentada, quando o céu que já estava nublado, começou a despejar aquela chuva de verão. Fui para dentro de casa, sentei na frente da lareira com o meu notebook e escrevi por horas e horas, sem intuito, sem algum planejamento: apenas escrevi; salvei aquele documento, dormi, e no dia seguinte comecei mais uma rotina normal.
Alguns dias depois, resolvi ler o que havia escrito, e estava ali, aquele texto era o que Alíce tinha me pedido há anos atrás, e eu nunca havia terminado; precisou de anos para que ele surgisse, sem propósito, sem meias palavras, apenas quem ela era em essência.
Mostrei para alguns amigos meu, sem explicar o contexto, e foi imensamente elogiado por todos, até que um de meus amigos, que lidava com poesia, selecionou-o para sair em uma coletânea intitulada “Novos Contos Brasileiros”.
A nossa estória foi assim, incerta, não prevista, e intensa.
Em vida, não soube se Alíce chegou a ler aquele conto. Nunca mais tive notícias dela, mas nunca a esqueci.
Dezembro de 2007
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