Antes de me formar tive professores maravilhosos; cada um era dono de uma peculiaridade que sempre me encantava. Homens são tão promíscuos as vezes, que sempre me vi na posição de evitar quaisquer catástrofes, e o fiz muito bem várias vezes.
Enquanto permeavam os assuntos científicos, deu-se em artes plásticas. Entre uma escola e outra, nos direcionamos a Monet. O único pintor que pelo qual ele parecia ter realmente gosto. Sem julgar mentalmente o fato, comentei então que na minha coleção de réplicas havia uma de Monet, foi então que ele me pediu que a levasse, se possível, para ele vê-la.
Como não resisto a pessoas que se abram para mim em quaisquer áreas artísticas, na semana seguinte o fiz.
Na faculdade haviam quatro auditórios de apresentação. Ele sempre ficava em um deles – por sinal, o mais modesto e menos usado – antes do início das aulas do período noturno. Terminadas as minhas aulas da tarde, parei na cantina para tomar um café. Havia quase um ano que eu tinha parado de fumar nessa época, e isso com certeza tinha mudado a minha vida.
Depois do café, usei um dos laboratórios de informática para revisar alguns estudos de JavaScript e depois fui para o auditório II.
Para adentrá-lo era preciso passar por todo pátio, e em seguida, por um corredor escuro com várias portas, aonde ficavam diversas salas de multimídia pouco usadas. A porta se encontrava fechada, porém, era possível notar a luz opaca acesa de seu interior, contrastando com a escuridão do corredor. Bati de leve duas vezes e abri. Na parede defronte estava passando uma apresentação sobre radiações provocadas pelos raios gama. Dei-lhe boa noite e pedi licença, gestos esses que ele retribuiu esbaforido e simpático, pedindo-me que entrasse.
Prossegui e encostei a porta, como estava antes. Fiz uma observação sobre a chuva fraca e incomoda que caia lá fora, e coloquei meus livros, cadernos e bolsa sobre a comprida mesa lateral.
Perguntei-lhe então se dispunha de tempo, pois eu havia trazido a obra da qual
conversávamos na semana anterior.
Ele se animou e disse que naquela noite não teria aulas à lecionar, e que era uma sorte eu tê-lo encontrado aquela hora.
Tirei a comprida folha do tubo, e delicadamente estendi-a sobre a mesa, colocando um caderno na parte superior e segurando a inferior com a ponta dos dedos. Ele veio então a minha direção, e se posicionou do lado vertical da mesa.
Meu tronco estava inclinado em demasia diante da mesa, e abro um parêntese importante aqui: Apesar de usar sempre os cabelos presos e óculos, nunca abandonei os decotes – moderados – e as unhas compridas com cores escuras. Fecha o parêntese.
Percebi que se encontrava um pouco intimidado com a situação, foi então que lhe chamei para ficar ao lado que eu estava, pois na vertical ele não iria ver com clareza.
Fez-se então na mesma posição que eu estava. Observava silenciosamente cada traço, e juntos apontávamos as partes em quais encontrávamos mais exatidão de sentimento ou técnica – comentários de leigos – claro.
A diferença da fisionomia de nossas mãos era uma boa síntese da nossa diferença de idade. Conforme nos distanciávamos e nos aproximávamos, a discussão ia ficando mais interessante e calorosa. Havia uma significativa diferença e altura entre nós, o que era engraçado. Sempre falei baixo, portanto, ele era obrigado a aproximar bem sua face da minha para ouvir-me bem.
Ambos já havíamos percebido que aquela discussão resultar-nos-ia em várias outros acontecimentos futuros.
Conforme nossas mãos acariciavam a folha, íamos nos sentindo mais próximos um do outro, até que elas se encontraram propositalmente diante da tela.
A dele estava por cima e acariciava meus dedos como se fossem eles parte da imagem. Dirigi meu olhar ao seu, e esboçamos dois sorrisos cômicos e vergonhosos, mas sorrisos complacentes; é...sorrisos complacentes.
Sua mão então seguiu o caminho natural: do meu antebraço deslizou aos meus cotovelos, seguindo para o braço. Estávamos de frente um para o outro, foi então que ele colocou a outra mão sobre meu outro braço e me puxou firmemente em direção ao seu corpo.
Nos olhamos delirantes e maliciosos, quando ele então me soltou e desceu as mãos para a minha cintura, apertando-a contra seu corpo, mais e mais.
Acariciei-lhe a face e passei uma das mãos que estava na sua nuca para dentro da gola de sua camisa, arranhando sem intenção suas costas, o que o fez estremecer e me beijar.
Sentir seus lábios quentes próximos aos meus foi uma sensação única, como se fosse meu primeiro beijo. É fato que já tive vários homens, porém aquela situação era diferente. Havia um quê de fetiche ali.
Enquanto nos perdíamos, eu cuidava de trazer minha mão ao seu peito, ele nunca abotoava os dois primeiros botões da camisa. Abri-lhe o terceiro e o quarto enquanto a outra mão puxava-o, sempre, para mais próximo que fosse possível.
Foi quando ele me levantou pela cintura e colocou-me em cima da mesa, erguendo minha blusa, e quase me deitando sobre a mesa, puxei sua camisa para fora da calça e desabotoei os últimos botões fechados.
Passei minha mão por toda extensão de seu peito a barriga; desejava-o ardentemente enquanto ele beijava meu pescoço, desejava como nunca desejei ninguém.
Diminuímos o ritmo na mesma freqüência, pois já havíamos tomado consciência do risco a qual estávamos nos expondo.
Nos comportamos então, e ele abaixou minha blusa; continuávamos a nos beijar enquanto eu fechava a sua camisa. Após isso, distanciou-se alguns centímetros e colocou ajeitou a blusa dentro da calça, como dantes.
Levantei-me da mesa, virei-me de costas para ele e enrolei a réplica, colocando-a em seguida no tubo.
Voltei-me para ele, e o encontrei sentado em uma das várias cadeiras defronte a tela do data-show. Sorriu-me sem dizer uma palavra, foi até o computador, desligou-o, pegou seu pendrive e as chaves do seu carro. Meus cadernos já estavam nos meus braços, juntamente da minha bolsa e o longo canudo.
Fitou-me por um instante, com aparente ternura e desejo, e disse-me ainda meio atordoado: “Vamos para outro lugar.”
E fomos.
Março de 2008
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