Havia tido um dia péssimo no trabalho - mas isso era normal, raro os dias que eram tranqüilos.
Ao sair da fábrica, pegou o carro no estacionamento e seguiu para um barzinho aonde costumava ver o futebol de domingo com os amigos e tomar cerveja. Não era domingo, e não havia amigos lá, pelo contrário e era Quarta-Feira.
Quarta-feira é o ápice da semana, o dia mais frustrado. Sentou-se no balcão, e pediu uma vodka com soda; não sabia ao certo porque tinha parado lá, nessas alturas do campeonato, ele só queria ir para casa, encontrar a esposa e se afundar no sofá.
O fato é que tinha uma filha pequena, de quatro anos, e por mais que - claro - fosse sua paixão (junto da esposa), hoje não estava com paciência para ouvir-lhe as suplicas pedindo que fosse brincar com ela.
Tomou o seu drinque, pediu outro e ficou observando as mulheres baixas que entravam no ambiente. Loiras, ruivas, altas, gordas, várias. Algumas aparentemente deprimidas, a busca de clientes. Outras, mais velhas e sorridentes, com ar de quem já viu de tudo, e que a vida não lhe passava de brincadeira, uma brincadeira sombria e maldosa, mas uma brincadeira da qual elas gostavam de dar boas risadas no fim do dia.
Resolveu ir a uma zona que conhecia; não gostava de chamar de zona, pois as meninas eram muito agradáveis, e sempre o tratava bem (independente de interesse ou dinheiro). Chegando lá, como ainda não era nem sete da noite, só entrou porque Margô era sua amiga.
Margô era a dona da casa, tinha aberto há 20 anos já, e beirava os 40 de idade; era uma mulher simpática e atraente, mais madura, mas que não atendia clientes, era a anfitriã do espaço.
Quando o viu, percebeu que ele não estava muito bem. Chamou-o para o andar de cima, ofereceu-lhe uísque com guaraná e sentaram-se no grande e confortável sofá do quarto dela.
Perguntou então o que se passava com ele, que estava visivelmente abatido e desanimado; cansaço, tédio, rotina. Era isso que tomava conta dele. O esforço em vão no serviço, trabalhava mais do que era da sua obrigação, e não fazia isso forçado, era por vontade própria. Sentia a necessidade de ser competente naquilo que fazia e de fato o era.
Portanto tudo tomava proporções cada vez maiores, e no fim do dia sentia uma profunda depressão, tinha vontade de chorar.
Margô abraçou-o e deitou sua cabeça no seu colo, e ficou a acariciar-lhe os cabelos. Gabriel sentia uma profunda vontade de chorar, e não tinha amigos que o deixassem a vontade pra isso, foi quando ouvindo os conselhos de Margô, desabou em um choro continuo e silencioso.
Antes mesmo de casar ele começara a frequentar a casa, então foi tornando-se amigo dela, pois muitas vezes ia apenas para beber alguma coisa e ver as streapers nos mastros, não fazia questão de passar a noite com elas de fato. E sempre foi um cliente bom, equilibrado, que de certa forma, quando mais novo, não deixava acontecer problemas no lugar; sabe-se que sempre tem os engraçadinhos forçando as meninas que não fazem programa (boa parte das streapers, por exemplo), a fazer-lhe carícias e quando bêbados, na marra mesmo.
Ele odiava essa falta de respeito que certos homens tinham com elas, era profissionais, e se quisesse uma diversão maior, que fossem falar com as prostitutas. Alto, corpulento e de face carrancuda, os outros clientes não batiam de frente com ele; Margô era grata por isso, era bom ter rapazes como ele na casa em dias de mais movimentos.
Mas Gabriel casou-se cedo, e logo deixou de frequentar como antes, ia poucas vezes então.
Olhou para o rosto de Margô e deu-lhe um sorriso comovido, de aparente fragilidade. Via no rosto da amiga uma imensa ternura, amiga qual já havia passado a noite, mas não a via hoje como uma mulher para tal. Era mais que isso, era amiga. Nunca teve muitas amigas, antes de casar até algumas, mas hoje não tinha nenhuma; E sabe-se como são os homens, há certos tipos de conversas, de conselhos, de situações, que eles não estão aptos a compreender.
Olhou no relógio e já tinha passado das 9. Sentiu cochilar no colo da amiga, e quando despertou vendo a hora, levantou-se calmamente e disse que precisava partir.
Abraçou-a, e sentiu um imenso pesar por ter de ir embora. Era bom estar ali com ela. Sentado, só ficar ao seu lado. Não precisa lhe dizer muitas coisas para que ela o compreendesse completamente, ela nunca negava atenção a ele, sempre como uma irmã mais velha.
Também adorava sua presença, e gostava quando ele a visitava, principalmente fora de movimento, pois podiam conversar sem preocupação. Ou então, apenas ficarem calados juntos.
Gabriel amava sua mulher, não tinha dúvida disso. Porém, em seus quase 9 anos de casamento, sentia-se pesaroso por ter se casado cedo.
Clarice era uma mulher maravilhosa, sempre terna e companheira. Trabalhava fora também, porque queria, e sempre dava conta da organização da casa e da vida da criança. Era um matrimonio bem realizado, mas Gabriel carregava um peso na consciência por no começo do casamento ter lhe traído tantas vezes. Hoje não sentia mais necessidade disso, preferia ficar no ócio com Margô às vezes a passar com alguma das meninas da casa. Sexo era bom, e ele gostava claro, mas Clarice não deixava nada a desejar, então não procurava mais por isso fora. O motivo de ter feito-o com frequência no começo do casamento, era puro complexo de inferioridade. Sentia-se inferior no quesito "beleza" em relação à Clarice. Ela, sempre apresentável, social e elegante, chamava a atenção. Sentia-se inseguro com isso, hoje, não mais. De todas as garotas que havia saído nesses 9 anos, pensou algumas vezes em se separar para ficar com uma ou outra (isso antes de sua filha nascer); mas acreditava que não valia a pena deixar uma vida toda que estava por vir devido à insegurança. Problemas por problemas, havia de tê-los com qualquer uma das garotas.
Deu um beijo no rosto de Margô, e agradeceu-lhe mais uma vez por tudo, e seguiu para fora da casa.Entrou no carro, pegou a avenida, e foi embora.
Chegando em casa, sua filha já estava dormindo, e Clarice estava de pijama sentada na sala, com o notebook aberto no colo e uma xícara de café na mesa de centro.
Ele pediu-lhe desculpa por ter demorado, sem dar mais justificativas. Ela disse que não tinha problema, e que se quisesse jantar tinha pedido uma pizza há algumas horas e estava no forno.
Gabriel aproximou-se dela, deu-lhe um beijo de quem aparenta cansaço e foi para a cozinha pensativo.
Considerava-se um homem com muita sorte, por ter uma esposa tão maravilhosa. Ela não pegava no pé, não ligava se ele saísse com os amigos para beber ou jogar baralho, desde que não faltasse com suas obrigações com a casa e com o bebê. Tempos atrás chegou até a desconfiar, se Clarice não tinha um amante ou coisa do tipo, pois realmente dava-lhe bastante liberdade.
Com o tempo essa idéia abrandou, pois não tinha motivos além para desconfiar de nada. O fato é que ela, era uma mulher apaixonada pela vida. Ainda nova, com seus 30 anos, trabalhava pouco mas fazia o que gostava, passava boa parte da noite estudando ou lendo, acordava relativamente cedo e dava conta de tudo, porque fazia muitas coisas, mas em doses pequenas.
Também tinha seus casinhos extraconjugais, mas nada com importância, não se preocupava com isso, também amava Gabriel e não sentia o peso dos anos. Casara-se porque queria, porque ele era um bom companheiro.
Ele não sabia porque se dedicava tanto ao serviço, sendo que não passavam nenhum tipo de aperto financeiro, e nem precisava fazer tanto esforço como fazia, mas no fundo ele se alienava no mesmo. Cuidava de um setor importante, lidava com a vida das pessoas, e isso o agradava, apesar do cansaço.
Ficaram casados por 15 anos, quando sua filha tinha 10 anos, se separaram e ela foi morar com o pai.
A separação foi pacífica, e ela fora porque queria, mas Clarice estava sempre presente, a buscava para levar à escola, participava das reuniões, dava-lhe conselhos (mesmo que ainda muito jovem a garota), e gostava mais ainda da independência que conseguia conciliar com aquilo tudo.
Gabriel sabia que na verdade, eram só amigos, e achavam melhor cada um morar na sua respectiva casa. Não queria sentir peso na consciência a sair com outras mulheres, era muito grato a todo apoio que Clarice tinha dado em sua vida, na sua carreira, nos seus planos. Sempre o apoiava e dava-lhe segurança estar por perto.
Por tanto, sempre esteve. Ela não se casou novamente porque não queria e ele, porque não gostava da idéia de dar uma madastra para sua filha.
A intensidade que unia os três esteve sempre presente; saiam em passeios familiares, dividiam os gastos com a menina, entravam em acordo, e até viajaram juntos algumas vezes. Tinham completa intimidade juntos, mas não havia mais interesse sexual entre ambos, justamente por essa pureza que permeava o relacionamento.
No começo, os pais de Clarice acharam abominável a idéia de a filha não morar com a mãe, mas viam que realmente, não teria grandes problemas pois Gabriel era um homem correto e ajuizado.Quando queria passar a noite fora, deixava-a na casa de Clarice; isso acontecia pouco, ela não ligava.
Eram duas pessoas bem resolvidas consigo mesmas, e com o tempo ele passou a dar menos importância ao trabalho. Não se tornou um mal empregado, mas sim na medida, pois agora a prioridade era a filha.
Essas mudanças fizeram bem para ele, agora sentia a calma dos anos passar, o trem correr certo nos trilhos, sem nenhum perigo de errar o trajeto.
Meados de 2008
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