sábado, 9 de maio de 2009

KYRIE

Me lembro muito bem daquela tarde fria de julho. Estava todos de férias da faculdade, e nos meus dias de folga aproveitava para ir ao cinema ou à biblioteca. Mesmo conhecendo tantas pessoas, eu preferia passar minhas folgas sozinhas; me cansava conviver com tanta gente todos os dias.
Sempre preferi procurar os títulos de meu interesse ao invés de pedi-los para os bibliotecários, o que os tornavam mais simpáticos comigo; a verdade era que eu sempre descobria coisas interessantes assim.Entrei na enorme sala, do andar superior, e perguntei para a moça sentada de frente ao computador qual era a estante dos autores de sobrenome começados em S.
Ela me apontou o fim do último corredor e concluiu com: “A esquerda”. Por coincidência seu nome era Samanta, e aparentava um pouco mais que minha idade – eu estava com 21 na época.

Tirei meus óculos para limpar as lentes meio embasadas, enquanto observava com a visão deturpada aquela variedade de pessoas ensimesmadas, concentradas em suas atividades.
Na mesa que Samanta revezava com outros bibliotecários, havia algumas pilhas de livros e o primeiro que avistei me trouxe boas lembranças. O título era Melancia, da Marian Keyes, e isso me fez sentir saudades da minha mãe, e me prometi que no próximo dia de folga viajaria para a cidade que morei muitos anos, para revê-la.Segui em direção a coluna indicada e comecei a circular entre aqueles vários exemplares. Ao abaixar para pegar o que então procurava – uma antiga edição de Simulacros, do Sergio Sant’Anna, que eu havia lido na adolescência – um homem que eu nem havia percebido ao meu lado também se abaixou.

Quando fui me desculpar de forma simplória pelo equivoco, ele se levantou e me olhou fundo nos olhos. Por um raio de minuto me passou pela cabeça vários anos, como flashes confusos que disputavam a atenção da minha mente confusa. Tudo parou quando sem rodeios, esse homem que me olhava com seus pequenos olhos castanhos e meigos, passou uma de suas mãos pela minha nuca e aproximou seu rosto do meu, tocando seus lábio nos meus, com um pequeno estalo que só nós dois escutamos.

Sem me dizer uma só palavra, levantamos e ele me abraçou delicadamente, encostando minha cabeça no seu peito. Enquanto aqueles longos braços me envolviam, senti o cheiro de xampu que vinha do seu cabelo, suas mãos nas minhas costas pareciam tocar uma frágil escultura, toque de apreciador, acostumado à tantas delas.
Quando nos desprendemos cautelosamente, os olhares voltaram a se encontrar, e dois singelos sorrisos floresceram de nossos lábios. Me sentia leve e fraca, e com o medo de me expressar errado, disse baixo: Por onde andavas.... Ele então recolheu suas mãos nos bolsos da calça jeans, e deixando-nos levar pelo ar frio da biblioteca, respondeu no mesmo tom: A sua espera.
Tirou meus óculos pequenos, despercebidos à distancia pela sua simplicidade proposital, e fechou as pálpebras de meus olhos com suas mãos macias; de olhos fechados então, senti colocá-los em minhas mãos, e com a outra, aproximava meu rosto de seus lábios, que delicadamente me disseram: Eu sempre estive aqui. À sua espera. E na hora certa, não iremos mais nos separar. Foi então a última frase que ouvi sair de sua boca, seguida de um tenro beijo no meu rosto.
Quando senti distanciar-se, olhei para trás e ele seguia em passos rijos rumo à escada.
Sentei-me desnorteada na mesa ao lado da estante, e as lagrimas tímidas escorriam de meus olhos. Decidi então voltar para casa, sem pensar em nenhuma alternativa que pudesse ser mais agradável.
Desci consternada os mesmos degraus que há poucos minutos ele havia descido e segui rumo a avenida.

O trânsito àquela hora do dia era intenso, e numa distração de um motorista jovem, ao desviar de um mendigo que atravessava trôpego aquela rua extensa, senti o impacto de uma batida, que não só resultou na queda dos meus óculos, mas como também da minha alma.

Meados de 2007

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